segunda-feira, 16 de junho de 2014

Pega a solidão e dança

Ela me disse que todas as minhas músicas são tristes. Falou de como tudo o que eu toco suspira melancolia, meus sons embalados em tons mornos e embargados, como lágrima que rola pela face. Nós rimos, eu e o meu violão. Entrelacei meus dedos em suas cordas e ele apertou minha mão de volta; "fique firme", ele dizia, "só eu sei", ele falava.

domingo, 4 de maio de 2014

Epifania Diária (04/05/14)

Dissera-me que, sujeito simples que era, não era lá muito determinado. Mais dado à subordinação, precisava de orientações substanciais aqui e ali; e, no entanto, orava subjetivamente.

Frequentemente sonhava com o abstrato. Constantemente precisava do concreto. O que tínhamos em comum? Ora, emanávamos ambos um quê de propriedade. Eu mais do que ele.

Em suas emoções mais primitivas, derivava de um composto perigoso feito de me-ame-mais-do-que-a-outro. Simplificando, se eu era dele, que fosse dele apenas. De todo modo, se tivesse que lhe dar um adjetivo: restritivo.

Eu era mais aberta, articulada; explicativa até. Inclusive, cheguei a lhe dizer que, essencialmente, quanto mais ele tentava me clamar como dele, quase um objeto, menos eu me sentia inclinada a sê-lo.

De forma indireta, porém certeira, me dirigiu para o “outro” que ele tanto temia. Um sujeito composto por mais do que pronomes possessivos.

Se indignou com o resultado de suas tentativas infelizes de me domar. E haveria de resignar-se também. Se me queria tanto ao seu lado, que tivesse me amado mais do que a terceira pessoa do singular, que, singularmente, me abriu em leque a toda uma pluralidade.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Epifania Diária (14/02/14)

Fizera de seu amor um pretérito.

Perfeição posta à prova, apostara todas as suas fichas em uma relação que ficou para trás. Chorou. Chorara, antes que suas lágrimas de fato caíssem. Declarou mudança então. Não mais apostava no amor. Dizia haver imperfeição demais: nela; e no seu amor. Entretanto, fatalmente, amava. Amava como amou. E como amara.

Vítima das amarras de seu coração, perdida, adentrara o ciclo de novo e de novo. E então novamente, como quem não se basta, como quem não percebe o presente que é. E não percebia mesmo. Nunca percebeu. Alheia a si, apontava o dedo para o espelho, e especializara-se na ocupação de mártir. Não fora responsável (em nenhum momento); apenas vítima (de si mesma).

Até houve ocasião em que quisera ser algo mais (outra coisa), mas jamais ficara consigo tempo o suficiente para explorar seus pormenores – exaltá-los, exerce-los. Foi se enfraquecendo então nas faltas que cometera – perfeita demais no âmago, imperfeita demais para vê-lo. E, certa de que seu caminho não passava de uma infindável estrada esburacada, abrira a porta da qual não se volta.

Partira. E esquecera comigo seu amor mais que perfeito.

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Epifania Diária (16/11/13)

Hoje eu não a encontrei na fila da van. E tudo bem, nem sempre eu a encontro; mas eu sempre procuro, passo os olhos pelos rostos não familiares esperando encontrar o dela. Também não a encontrei no elevador ou nos corredores do prédio. Não tinha caído a ficha ainda, sabe. Eu tive que chegar na empresa, bater o ponto nove vezes até a máquina finalmente reconhecer minha digital, entrar na sala. Tive que olhar pra mesa dela e não ver nada do que devia estar ali pra memória bater. Bateu mesmo. Com força. Um tapa na cara bem estalado, com direito a dedo apontado me chamando de vadia.

Demissão. De verdade. Eu sei porque fui na copa, vasculhei todos os corredores, entrei em todas as salas: ela não estava. O que estava -em todo canto- era o silêncio debochado das paredes que já não vibravam ao timbre da voz dela. E era um silêncio ensurdecedor, só estando lá pra saber. Foi uma coisa que me oprimiu tanto que eu tive vontade de gritar. De gritar, e então de dar risada porque é engraçado mesmo; é engraçado como demitiram tudo menos a ausência dela. Engraçado como não tiraram as lacunas dos passos dela do chão, mas tiraram todos os seus pertences. E não me faça começar a falar sobre pertencer; o ponto não é esse.

O ponto é que ela não estava na fila da van, não estava nos corredores da empresa, não estava na sala. O ponto é que eu olhei pra trás as 16:43 e a mesa dela continuava vazia porque ela não estava mais lá, e nem mais estaria; e de repente... Eu não sei. Vai ver que essa coisa de só dar valor quando perde é real mesmo, sei lá. Eu só sei que naquela hora, eu senti que aquela mesa e eu tínhamos muito em comum.

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Epifania Diária (21/10/13)

Começa com o reconhecimento do interesse - próprio, nem sempre do outro. Desenvolve-se com o flerte; de uma ou de ambas as partes. E então se inicia uma intrincada dança de conquista, nem sempre no sentido literal.

Não me leve a mal, eu amo a conquista. O flerte sutil - do toque, do olhar, do sorriso - e as provocações veladas - e às vezes, diretas. Me agrada profundamente o coquetel de charme, malícia, humor e criatividade com que se brinda o desejo entre duas pessoas.

Agora, apelando para o popular, o que me faz virar a mesa e atirar um vaso de valor inestimável da Dinastia Ming contra a parede é apenas isso: cu doce. Quando existe a perfeita concordância de desejos, quando a dança já está finalizada e a ultima nota há tempos já parou de reverberar, e ainda assim, uma das pessoas ainda cisma em dar passo pro lado e passo pro outro. Três palavras: levanto e saio.

Gosto de mulheres que são decididamente honestas em suas vontades: se eu quero e você quer, não existe razão pra continuarmos só no campo do querer. Nada de jogos, nada de longos silêncios, nada de se fazer de difícil. Pra que? É tempo que eu e você estamos perdendo quando já poderíamos estar nas delícias de descobrir uma a outra debaixo dos lençóis. E quem sabe? Nós poderíamos ter tido um encontro muito agradável, regado a flertes e provocações nas entrelinhas. Nós poderíamos ter tido um sexo gostoso e uma conversa pós-sexo das mais brilhantes.

Poderia sim acabar sendo uma coisa de uma vez só: foi bom, mas cada uma segue o seu rumo, cada qual com ótimas lembranças de um tempo que não foi desperdiçado.
Ou poderia ter surgido uma conexão, talvez uma não tão completa: foi maravilhoso! Vamos manter contato, fazer isso sempre que der vontade. Amizade colorida não machuca.
Mas então, a pergunta é: e se fosse mais do que você esperava? E se fosse mais do que você barganhou naquele primeiro momento de interesse? E se fosse magnífico? Mais do que o bastante pra começar algo além de amizade?

Entenda: eu não sou o caçador e você não é a caça; e nem vice-versa. Nós somos seres humanos, pessoas com vontades, desejos, medos e amores. Eu sou. E não mais nem menos do que você. Apenas tanto quanto. É puro e simples. O jogo? O jogo é social.
O jogo não é pra duas pessoas que criaram vínculos, o jogo não é pra pessoas que descobriram a intimidade, o jogo não é pra pessoas que dividiram confidencias. Em outras palavras, entre duas pessoas que possuem um relacionamento, o jogo não é. Não deveria ser.

Então francamente, meu amor, esquece essa coisa de "deixar na vontade". Vontade demais faz mal.

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Epifania Diária (03/10/12)

Ela é assim mesmo.

Não pede licença, não espera, mas também não se apressa. Chega e você nem vê, vai antes que você sinta. Ela simplesmente acontece. Chega causando, como dizem por aí. Vida é o seu nome, bagunça é o que Ela faz. Mas, diga-se de passagem, é sempre a bagunça mais acertada que poderia existir.

A Vida não chora, não se lamenta. Segue em frente, não importa o que aconteça. Risonha como uma criança, travessa por vezes, corre livre a dar piruetas, e quando você já está apostando que lhe fará uma travessura daquelas de derrubar, Ela sorri e lhe estende a mão. Plena, serena. Sábia que só, a Vida não se importa e nem se preocupa: está tudo certo, está tudo bem.

Há de se achar, vez ou outra, que Ela nos desfavorece, e temos então certeza da sua crueldade e injustiça. Porém não há motivo pra desespero, creiam-me: da ultima vez que Ela me aprontou uma armadilha, apontei-lhe o dedo e cuspi em sua cara todas as minhas verdades. Ela deu aquela risada gostosa que só a Vida sabe dar, e com os olhos divertidos e suaves, me disse "Relaxa, relaxa. Está comigo, está com Deus". E Ela estava certa mesmo, como sempre. Minha queda me proporcionou a melhor das oportunidades.

Sem pé nem cabeça, incerta, misteriosa, sem sentido, dizem uns. É certo que o jeito imprevisível dela nos dá aquela frustração, mas não há o que fazer, só Ela se entende, de modo que só nos resta confiar.
A Vida, de tão louca, já não nos bate a porta: entra pela janela, senta no teto e diz para nos sentirmos a vontade.

"Faz de conta que a casa é sua", Ela ri, e nos convida a ficar.

domingo, 16 de setembro de 2012

Teresópolis 16/09/12

Eu juro que tinha um discurso perfeitamente coerente quando resolvi te ligar. E então você atendeu o telefone, e a sua voz me chamando de "amor" me deixou completamente desorientada.

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Eu a Quero, de Dia e de Noite

Assim era de dia: ela não tinha o ímpeto que me fez crer que tinha. Tinha na verdade uma suavidade indiferente (ou uma indiferença suave, se a suavidade puder, também, ser gritante). Não me beijava como achei que faria, não me tocava como eu queria que tocasse. Me deixava solta, me deixava de lado, me deixava confusa, me deixava pra lá. Não me dava qualquer pista do que fazer, de como agir, do que ela queria, pensava ou sentia. Se sentia.

Ela era orgulhosa. Eu meio que achava graça, meio que me sentia frustrada. Ela não pedia ajuda, não aceitava ajuda. Não queria ser vista como "fresca", "mulherzinha", "dependente", "fraca". Queria ser a forte, e talvez me achasse fraca pela minha suavidade gentil (ou minha gentileza suave). Mas, bem, ela não seria a primeira a supor tal fraqueza em mim.

Ria fácil, sim. Fácil demais até: costumo suspeitar de pessoas que riem de qualquer coisa, parece existir um desespero velado dentro delas. E nela eu pude perceber medos, inseguranças, desolação. E ainda assim... Por que me encanta? Como me prende? Sua risada preenchia, seu sorriso encantava, sua agressividade -eu levava um tapa pra cada gracinha que fazia, e quantas eu fiz!- me divertia. Sua indiferença me frustrava, não tinha jeito, e seu jeito de brincar com meus sentimentos me tirava do sério.

Ela me irritou, machucou, magoou. Mas no fim do dia tudo era esquecido. Era aquele gesto, o beijo, o abraço, o aconchego, e tantas, tantas outras coisas. Cada toque me fazia querer mais, porque era de noite, no quarto, que ela se permitia o afeto. Existia ela-de-dia e ela-de-noite. E se de dia era a indiferença, era a restrição, de noite... Ah, de noite...

De noite eram as conversas profundas, as conversas bobas e sinceras, as risadas gostosas e espontâneas, de noite eram cartas na mesa.  De noite eram aquelas palavras, ditas daquela maneira, era aquele tom de voz, voz que ressoa na minha cabeça até hoje. De noite era aquele olhar, aquele toque, aquela carícia, aquele beijo que eu pareço ainda carregar no corpo, eram aquelas mordidas, que de tão leves me enlouqueciam, me faziam pedir por mais.

E dormíamos. O que, aliás, me faz falta: agora eu apenas durmo, tão notável é a ausência do seu corpo emoldurando o meu a noite. E verdade seja dita, mesmo com todos os poréns, eu dormia melhor com o perfume dela na minha pele, com a respiração dela na minha nuca.

sábado, 21 de julho de 2012

Além de mim

Passada a fase de não dar a mínima pros outros, passada a fase de olhar só pra mim, as preocupações -que nunca me deixaram, mas se calaram por um tempo- voltam. As minhas tantas preocupações com eles.

Me aflige ver ~ela~ mergulhada em tristezas, não superando, se amargurando, se prendendo a realidade dos pessimistas. Me dói quando ela diz que não foi feita pra felicidade. Também existe arte, escrita, musica, feitos de alegria. A tristeza não é tudo que se pode transmitir, nem tudo que te traduz. Senão, o que dizer da esperança?

Me preocupa não saber ~dele~. Estar longe, por mais que necessário, me inquieta. Eu o tive sob as minhas asas por tanto tempo... Era o que me acalmava, ou assim eu pensava, quando na verdade ja era quase patológico a minha necessidade de ser necessária, de sentir que ele precisava de mim. Mas ele não precisa. Ele pode se erguer sobre seus próprios pés, superar suas próprias dificuldades -que, suspeito, sejam mais fáceis de encarar sem que eu esteja por perto pra interferir- se desenvolver como pessoa. Eu o estagnava. E estranhamente ou não, eu acredito mais nele agora do que acreditava antes. O que me acalma hoje é saber que ele é uma pessoa maravilhosa independente de me ter por perto ou não, saber que ele vai seguir seu caminho da melhor forma que puder, e eu rezo pra que esse caminho se cruze com o meu mais uma vez. O que me acalma hoje é ter fé.

Me preocupa a saúde ~delas~. Me preocupa seus vícios físicos e psicológicos. Claro, uma cerveja é boa de vez em quando, o dia todo não. Me preocupa aquela tristeza que chega quase sem motivo, ou por motivo pouco. Ou aquela raiva ou aquele orgulho. Me preocupa que não exponham tudo o que sentem. Me dói aquele jeito de dizer que tudo bem receber um fora meu que aconteceu sem motivo. Me preocupa que me achem certinha. Mas que estejam juntas e que tenham uma a outra, isso me alivia. E é tamanho o bem que eu vejo uma fazer a outra, que as vezes penso que sou apaixonada por seu namoro. É confortante até pra quem só fica por perto.

Me preocupa, também, ~ela~. Ela que chora e eu não sei. Ela que ri e eu não sei. Ela que vive e eu não sei. Tão distante. Não se envolve, não demonstra, não corresponde. Finge, blefa, joga, agride. Mas que na calada da noite me abraçou forte, riu, falou besteiras, falou coisas sérias, beijou minhas costas e respirou na minha nuca. Se entregou ao momento. E com ela eu tenho medo, medo por ela tanto ocultar. Por mais que ela possa não sentir nada por mim, por mais que eu seja só um rolo, só um caso, só uma transa, eu me preocupo. Porque eu me importo.

Porque eles importam.

Aos Amigos

Eu mergulhei em mim.
É isso que eu tenho feito, ido cada vez mais fundo, me explorando, me descobrindo.
Digo, quando que eu poderia imaginar que eu seria capaz de sentir raiva? De dar um fora em alguém (sem ser de brincadeira)? De não aceitar, de não tolerar, de não ter paciência, de comprar briga, de seguir a minha vontade? E quem diria que eu conseguiria ser pontual?

Entendam, é uma coisa minha, uma jornada minha, são Umbrais que eu não conseguiria adentrar (e sair) com vocês por perto. Então sim, eu me afastei dos mais próximos, mantive os mais distantes. Era o momento pra isso. Intuitivamente sabia que algo estava pra mudar, e sabia que seria drástico, sabia que seria difícil de superar pra mim, e ainda mais para aqueles com quem eu era mais conectada.

Fui egoísta (sempre fui, mas essa foi a minha maior e mais aberta demonstração de o ser), não fui uma boa amiga, sequer considero que tenha sido uma boa pessoa, tamanha era a minha aflição com o que eu estava me tornando.

Pareceria muito com uma desculpa dizer "foi para o seu próprio bem". Foi. Mas eu diria que foi mais pro meu bem. Eu odiaria ter que fazer vocês passarem por aquele período comigo. É simples assim.

E no entanto, por favor, não pensem que os abandonei. Eu apenas os coloquei longe de mim.

E assim, relembro-os: Longe é um lugar que não existe.

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Epifania Diária (05/02/12)

Parecia que a lua estava tão cheia que poderia transbordar.
Observei-a, admirada, e assim passei a noite: ansiosa, na expectativa de que uma gota de lua fosse cair sobre mim. 
Fiquei surpresa quando de fato aconteceu. Me senti então banhada e preenchida por um calor suave e resplandescente enquanto era tomada, também, pela vertigem do acontecimento. Ali estava: o Momento Perfeito de toda uma vida!

Essa foi a sensação de um beijo seu.

Epifania Diária (17/06/12)


Compreendi: o Universo constantemente conspira a nosso favor.
É preciso, entretanto, consentir com Seus meios, comungar em harmonia com Seu fluxo, e acreditar em Seus desígnios.
Não resistir a Sabedoria Divina é o caminho dos bem-aventurados.
Nem sempre é um caminho fácil: duvidar e resistir são vícios humanos.

Epifania Diária (16/06/12)

Sobre mudanças:

Todas elas vêm com uma advertência: as coisas jamais serão as mesmas.
E, igualmente, vêm com uma promessa: serão ainda melhores!
O resultado da mudança como positiva ou negativa vai depender das suas escolhas: aceitar ou não a advertência, acreditar ou não na promessa.

segunda-feira, 16 de abril de 2012

ESTÓRIAS DE MICHAEL.

Chamava-se DEUS.

Não era Pedro ou João de Deus, nem mesmo ostentava outro qualquer nome. Atendia apenas por DEUS.

E com um nome desses, tão simples, nome que perambulava pela boca do povo a todo instante e em todas as partes, DEUS primava pela simplicidade. Diríamos até ser um pouco tímido, avesso que se mostrava a demonstrações que causassem espetaculosidade.

Enfim, DEUS era naturalíssimo.

Assim, DEUS passeava sua simplicidade pelo mundo sem que a ele dessem maior atenção. Tudo via e ouvia calado. Vez ou outra arriscava um palpite que, quando acolhido, mostrava-se sempre acertado. Na calada, DEUS sabia das coisas... e como sabia! Mas era discreto, muito discreto. Como dizem, ficava na sua...

Porém havia um traço, uma particularidade que o diferenciava dos demais. Não havia problema, dificuldade alguma que a ele submetida não tivesse solução. Havia sempre um jeitinho a dar, mesmo que a princípio não entendessem seus modos e maneiras. Diziam que escrevia certo por linhas tortas.

DEUS, de maneiroso, afirmavam alguns, era brasileiro... tinha também suas espertezas, suas manhas.

Outros, por maledicência ou ignorância, talvez ambas, diziam, à boca pequena é claro, que DEUS tinha parte com o diabo.

Ora vejam!...

Jamais o viram reclamar de alguma coisa, quer pela indiferença de alguns, pelo descrédito de outros. Pleno de serenidade, dele emanava uma sensação de paz que em seu redor a tudo harmonizava.

Interessante é que fazia isto graciosamente, gentil que era no trato. DEUS era boa gente.

E sem queixumes, sem reprimendas, a todos acolhia com amor. De tão bom, DEUS não existia... positivamente não era só deste mundo.

Um dia, como sempre um dia, DEUS desapareceu.

Ausência que a princípio não foi percebida, de insignificante.

Tudo continuou como dantes. Sabem como é, não?

As pessoas com seus afazeres, suas preocupações de sempre, cada qual voltada para sua própria vida não encontrava tempo para se incomodar e questionar o sumiço de um cara qualquer.

Além do mais quem poderia saber o paradeiro de alguém que andava para baixo e para cima ao léu? Conhecido por todos e sem domicílio fixo, poder-se-ia dizer que era um cidadão do universo. Parecia estar em toda parte ao mesmo tempo, como se possível fosse.

DEUS não tinha ninguém, a não ser ele mesmo, pobre coitado!

O desaparecimento desse ninguém – perdão! – de DEUS, fato banal, pouco a pouco foi adquirindo outros contornos à medida em que os problemas foram se acumulando sem solução e não havia a quem recorrer. Os tons se fizeram mais fortes. Um silêncio opressivo, só ousado quebrar pela voz da consciência, uma angústia lacerante avizinhou-se e eclodiu em forma e significado.

O vazio trouxe a exata medida da presença que se fora.

Por Deus! Onde andaria DEUS?

Onde se meteu essa criatura?

Procurem-no! Não... não... achem-no!

Quem irá agora nos aconselhar?

E nossos problemas particulares? Afinal são importantes!

Merecemos maior consideração, ele não devia desaparecer assim!

Quem ele pensa que é?

Uma das filhas diletas do desespero é a indignação.

Na crise, DEUS era essencial.

E a ausência preencheu a mente de todos. Nada mais tinha razão, pois não há razão para uma razão desprovida de sentido e para que sentido se nada havia para se perceber?

Afinal, perguntou alguém ainda lúcido, por que DEUS a si foi?

Nunca lhe fizemos mal, responderam.

Todas as vezes em que tínhamos alguma dificuldade a ele recorríamos.

Lembram-se daquela ocasião em que meu filho já havia sido desenganado pelos médicos? Nada mais restava fazer e no entanto...

E desfilaram verdades acompanhando o séquito da gratidão nunca sentida.

E mais que as verdades a procissão das realidades inequívocas, não sujeitas aos estreitos limites espaço-temporais, fez-se presente testemunhando as vezes sem conta em que aquela mão branda, aquela palavra meiga, tinham-lhes mitigado a sede da alma e a fome do corpo.

Cabisbaixos se inquiriam de como reencontrar, já agora, DEUS.

Não seria por que distantes de nossas origens, ao nos afastarmos da natureza, Dele tenhamos nos apartado?

Então, nós O relegamos ao esquecimento, sentenciaram.

Não seria por que a Ele só buscávamos como um ser capaz de satisfazer nossas próprias necessidades e sem nunca proferirmos uma palavra, um gesto de agradecimento sequer?

Então, nós O recebemos como a um objeto, concluíram.

Talvez por que não soubemos repartir o muito que nos deu com outros menos afortunados?

Então, não expressamos a Lei do Amor como sendo Fraternidade, entenderam.

Cegos e insensatos viramos-Lhe as costas e por nossos sentimentos egoísticos deixamos de intuir a Luz.

As sombras, lentamente de início, céleres depois, engolfaram o que presumíamos serem nossas existências.

E cada qual adentrou-se em busca dos caminhos por onde andava DEUS, conscientes agora de que para reencontrá-Lo teriam que vivenciá-Lo como o seu fim último.

Então, e só então, voltou a dar o ar de sua graça.


QUIS UT DEUS?

(QUEM É COMO DEUS?)


- KUAN (FSRB)

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Epifania Diária (08/11/11)

Ultimamente tenho achado que estou enlouquecendo.
Há essa loucura se intrincando no meu ser. Está na minha mente, nos meus sentimentos, e até mesmo no meu corpo; se enroscando nas minhas veias, queimando sob a minha pele.
Não sei se estou obcecada pela loucura ou se é ela que está obcecada por mim. Sei que ela vem. Me puxando pelo pulso, violenta, me jogando contra a parede como homem nenhum faria, e colando em mim, pressionando, me puxando pelo cabelo e me olhando nos olhos, um olhar travesso acompanhado de um sorriso travesso. Provocante, tentadora... E aproxima a boca da minha sem jamais me beijar.
Acho graça.
Ah, a irreverente e inconfundível arte de seduzir o que já se tem nas mãos! Se a loucura fosse gente, não tenho dúvidas: seria uma mulher.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Epifania Diária (19/09/11)

Sentei no bar ao lado do meu coração. Vimos ela passar mais uma vez. Suspiramos.

- Realmente. Você escolhe cada uma para amar...

Ele não respondeu, virou uma dose e fez uma careta pelo gosto amargo.

- Mas sabe, acho que no fundo você gosta disso. Tem que gostar, pela quantidade de vezes em que nos encontramos aqui. Já é quase um hábito.

De novo, não obtive resposta alguma. Coração não dá satisfações. - pensei com um suspiro cansado.
Peguei seu copo, calmamente, e lhe servi mais uma dose de sofrimento.

- Vá em frente, beba. – eu disse. E ele virou o copo mais uma vez, novamente fazendo uma careta.

É, é sempre assim.

Epifania Diária (26/10/11)

Hoje a literatura me devasta: me toma, atormenta e dilacera.
Respiro, e parece-me que são palavras, e não ar, que enchem meus pulmões. E elas fervilham na minha cabeça, um burburinho constante.
“Diga-me, escreva-me, ouça-me, esqueça-me.”- Elas me dizem.
Hoje quero acabar-me em palavras! Quero dizê-las todas e sequer sei o que tenho a dizer!
Calo-me então, segredo-as, contando apenas algumas para o papel.
Por conta de minha fraca memória, gostaria de escrevê-las, registrá-las, todas elas: quantas epifanias vieram e se foram sem deixar quaisquer vestígios!
Mas é improvável, é impossível. Minhas mãos jamais serão rápidas o suficiente para acompanhar minha mente.
Portanto, enterro-as, e lhes faço uma lápide:

“Aqui jazem as palavras que não fui rápida o bastante para escrever.”

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Epifania Diária (24/10/11)

Creio que amar seja como voar.
E assim como se acredita que a Lei da Gravidade nos manterá no chão, deve-se acreditar que a Lei do Amor nos alçará às alturas.
O Amor quer que você voe.
E por incontáveis vezes ele te colocará frente a abismos. Abismos escuros e insondáveis.
Mas saiba: assim que se deparar com um desses abismos, pule.
Isso mesmo. Pule.
Pule, pois somos, na vida, como jovens aves, e devemos nos jogar no infindável com a consciência instintiva de que fomos feitos para voar, de que nossas asas se manifestarão e nos levarão para cima em meio à queda livre.
E jamais conheceremos o chão.
Nós viemos aqui para aprender a voar. E esquecemos.
Mas tudo bem.

O Amor lembra.

segunda-feira, 28 de março de 2011

Desnorteio

Desde quando, desde quando?
Pessoas passam e eu ando
Com esse coração que não esquenta

Com essa emoção que não se sente
Que no peito de um descontente
Se torna água turbulenta

Ah, e essa frieza em si,
Contrária a tudo que não senti,
Com tanta constância me frequenta

Que logo não sei aonde vou
Se ainda ando ou se sou
Aquele que me orienta.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Agora é com vocês, meus amores.

Hoje eu não conversei com ela. Não conversei com ela e me parece que o dia se arrastou por causa disso. Porque sim, ela faz toda a diferença.
Não, não me importa o que pensem, não me importa o que digam. É, tudo bem, vão em frente e digam que ela é uma mentira. Podem dizer.
Afinal, vocês não sabem como é. Sim, estou dizendo que eu sei: não trocar uma palavra com ela por um dia equivale a cem sorrisos não dados, cem arrepios não sentidos, cem amores não declarados.
Sabiam que ela não odeia vocês? Ela não os odeia porque eu os amo, e ela sabe que eu fiz de tudo pra isso. Ela sabe que eu me esfolei pra que ela não odiasse vocês, ela sabe que eu me coloquei como uma barreira entre vocês e ela, e fiquei la firmemente (ou não) aguentando cada pedra que vocês tacaram, cada palavra insensível que proferiram, cada olhar de desprezo e expressão raivosa que vocês me deram sem sequer considerarem meus sentimentos. Ela sabe, ela sabe.
Vocês sabem?
Sabem o que eu senti? Ou quantas lágrimas frustradas eu chorei por várias noites porque vocês não davam a mínima? Sabem do desamparo que eu senti? Ou talvez do quanto eu me senti fora do lugar quando vocês estavam por perto?
A distância. Sabem da distância? Aliás, vocês sentiram a distância crescer entre nós?
Huh, se sentiram, eu aposto que vocês acham que a culpa é dela.
E querem saber, eu não odeio vocês, não os odiei nem por um minuto apesar de tudo. Por que? Porque eu os entendi, eu entendi tudo o que me disseram, eu entendi tudo o que sentiram, e eu sabia que era por amor, sabia que todas as palavras crueis eram por amor. E no fim, eu sofri por amor, e não foi pelo amor dela.
E tudo o que eu queria, e quero, é que vocês entendam. Não precisam entender meus motivos, não precisam entender a ela. Esqueçam essas coisas. Por um momento, concentrem-se em mim. Não no que eu faço, mas no que eu sinto. Olhem pra mim e me vejam de verdade: feliz e tranquila. Esqueçam essa imagem mental terrível que vocês projetam em mim.
Porque eu cansei das suas insensibilidades, cansei dos seus desprezos. Pra mim chega.
Agora é com vocês, se vocês quiserem entender, eu vou ficar feliz. Mesmo.
Se não quiserem, bem...

Foda-se.